Análise Financeira

Risco Financeiro de Fornecedores

Publicada em 25 de julho de 2017

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Medir o risco de fornecimento não é uma tarefa fácil. Devemos considerar uma série de âmbitos e indicadores que nos permitam conhecer profundamente cada um de nossos fornecedores. Sem dúvida o fator mais relevante quando um profissional de compras deseja fazer aquisições com Fornecedores de Alavancagem, de Gargalo e principalmente os Estratégicos é a Análise Financeira.

Para isso vamos entender o que extrair dos demonstrativos “Balanço Patrimonial e DRE – Demonstrativo do Resultado do Exercício”, e calcular os principais indicadores que nos ajudarão nessa avaliação.

1 CONCEITO DOS DEMONSTRATIVOS:

2 DEMONSTRATIVOS E DOCUMENTOS

Em primeiro lugar devemos padronizar os documentos recebidos, transcrever as principais contas contábeis de tal forma que possamos fazer uma comparação efetiva.

O segundo passo é certificar-se que o Balanço Patrimonial esteja fechado no dia do fechamento contábil. Na maioria dos casos acontece no dia 31 de dezembro do último ano, ou seja, se considerarmos hoje a análise de qualquer balanço, a data finda é 31 de dezembro de 2016. Entretanto, nem sempre esta data é respeitada: empresas de capital estrangeiro, por exemplo, podem seguir o calendário de suas matrizes (30 de abril, 30 de setembro ou outra data).

A DRE deve considerar o ano todo, ou seja, entre 01 de janeiro de 2016 a 31 de dezembro de 2016.

É sempre bom verificar o CNPJ da empresa. Muitas vezes recebemos documentos de filiais que podem comprometer a análise. Sempre recomendo que quando o fornecedor possuir 1 (uma) ou mais filiais sejam analisados em conjunto o Balanço e DRE, de forma consolidada.

Verificar a partida dupla contábil (Ativos = Passivos + Patrimônio). Pode parecer até ridículo, porém se esta regra não se cumpre quer dizer que a técnica contábil não foi aplicada corretamente e por isso não é possível realizar a análise. Esta atenção deve ser dada principalmente em empresas que não possuem seus balanços auditados por empresas independentes.

Verificar também se o capital social é igual ao contrato social. Isso garante que todas as mudanças societárias estão corretamente registradas na contabilidade. Recomendo que, para ter mais solidez nas informações coletadas, seja solicitado o relatório do site da nota fiscal eletrônica para ratificar que as vendas informadas na DRE estão corretas.

3 INDICADORES

Com todas essas verificações realizadas, começamos a gerar indicadores. O detalhe de cada um está no documento denominado guia técnica de análise financeiro no link no final do documento.

Liquidez: Este indicador verifica a capacidade de o fornecedor pagar as suas dívidas. Quando o indicador é maior que 1 (um) a liquidez é adequada. Recomendo calcular:

  • Liquidez Corrente, Geral e Seca para fornecedores de produtos;
  • Liquidez Corrente e Geral para fornecedores de serviços.

    Rentabilidade: É a margem de lucro da empresa comparada com outros indicadores. O Lucro direto sobre as vendas nos ajuda a projetar saving.

    Endividamento: Sempre temos algo que pagar (passivos). E o patrimônio líquido é a dívida que a empresa tem com os seus sócios. Com esta informação calculamos dois indicadores de endividamento que são:

  • Endividamento Total: Corresponde a soma dos passivos dividido pelo Patrimônio Líquido.
  • Endividamento Bancário: A soma das linhas de empréstimos dividido pelo Patrimônio Líquido.
  • Importante sempre analisar a relação entre o endividamento bancário de curto e de longo prazo: a existência de uma grande parcela de dívida a ser paga em um prazo de até 1 ano coloca a empresa em uma situação de grande risco de liquidez (incapacidade de gerar caixa para pagar a dívida, associada a restrição de crédito por parte dos bancos).

    Outros dois indicadores importantes e muito utilizados na análise do endividamento de uma empresa são as relações de:

      1.- EBITDA / Despesa Financeira e;
      1.- Aplicação Financeira / Dívida Financeira.

    Enquanto que o primeiro demonstra a capacidade operacional de gerar caixa para honrar suas obrigações financeiras, o segundo descreve o caixa disponível para o pagamento das dívidas, sem precisar contar com a geração de caixa operacional. Ou seja, ambos os indicadores são complementares. A evolução destes ao longo do tempo também traz importante informação sobre a evolução da saúde financeira da empresa: a necessidade crescente de endividamento bancário de curto prazo indica uma empresa com crescente dificuldade de honrar seus compromissos com o caixa advindo da operação da empresa, necessitando assim levantar recursos junto a terceiros.

    Termômetro de Insolvência de Kanitz: É um instrumento holístico que é utilizado para medir a probabilidade de falência de uma empresa. Segundo este método se o indicador estiver igual ou menor que menos três (≤-3) existe uma alta possibilidade de falência no curto prazo. Por outro lado, as empresas que se encontram entre 0 (zero) e 7 (sete) estão na faixa de solvência com poucas probabilidades de falir no curto prazo.

    Dependência Financeira: Permite conhecer qual é a participação da sua empresa nas vendas do fornecedor. É um indicador de capacidade de geração de caixa e NÃO de responsabilidade sobre os passivos como é o caso do Capital Social.

    Dependência Financeira Alta: O fornecedor depende muito de seu Cliente:

  • Fornecedor com Lucros: Compras iguais ou superiores a 50% das vendas;
  • Fornecedor com Prejuízo: Compras iguais ou superiores a 30% das vendas.
  • Dependência Financeira Baixa:

  • Fornecedor com Lucros: Compras iguais ou inferiores a 20% das vendas;
  • Fornecedor com Prejuízo: Compras iguais ou inferiores a 5% das vendas.
  • Órgão de Proteção ao Crédito – No Brasil existem dois Órgãos oficiais a: SERASA Experian e a Boa Vista Serviços.

    Os bancos lançaram este ano (2017) a GIC – Gestora de Inteligência de Crédito – porém não vi nenhum diferencial nesse novo órgão de proteção ao crédito.

    Estes órgãos calculam o risco de crédito e probabilidade de inadimplência baseados no comportamento estatístico das empresas e pessoas.

    O Órgão de Proteção de Crédito, não pode ser o único indicador de referência, pois um contrato pode tirar uma empresa “do buraco” ou inclusive falir a mesma se o contrato for mal negociado.

    Análise de Capacidade de Crédito: Não recomendo fazer esta análise somente baseada na informação da documentação que verificamos. Para calcular estes indicadores devemos verificar:

  • Capacidade de geração de caixa;
  • Contratos;
  • Ativos imobilizados;
  • Garantias;
  • Situação dos sócios, entre outros aspectos.
  • Um cliente uma vez me disse que para calcular Análise de Capacidade de Crédito, se baseava no Capital Social já que a premissa era a seguinte:

    “O Capital Social da empresa é a responsabilidade máxima que uma empresa tem em caso de falência, ou seja, se a empresa tem passivos por R$10 milhões e um capital social de R$10 mil esse é o valor máximo que ela tem que pagar em caso de falência. ”

    A afirmação acima NÃO é 100% verdade.

    Quando as empresas assumem compromissos elas normalmente devem gerar garantias. Os bancos, por exemplo, calculam a capacidade de crédito de empresas novas baseados no capital social e na situação dos sócios.

    Se a empresa tem menos de 3 (três) anos e não apresenta nenhuma garantia, o valor máximo que entregam de crédito é 50% do Capital Social. Porém isso muda quando os sócios assinam como avalistas solidários (previa análise do sócio) ou deixam imóveis ou títulos de capitalização como garantia.

    Para empresas com mais de 3 (três) anos é analisado o faturamento médio, a inadimplência da carteira de clientes, a capacidade de geração de caixa, entre outros.

    Um exemplo típico de como o capital social pode ser uma péssima forma de avaliar o risco é a UBER. O Capital Social da UBER no Brasil é de R$1.000,00 (Mil Reais) e a UBER no mundo não tem gerado lucros. Porém é uma empresa com uma incrível capacidade de geração de caixa. Para os investidores e analistas a chance da UBER virar uma bolha nos próximos 5 anos é nula. O risco que vejo com ela no Brasil é a responsabilidade solidária trabalhista e não financeiro.

    Muito importante também analisar quem são os acionistas/cotistas das empresas. Afinal, em caso de insolvência da empresa, eles serão responsáveis por honrar os débitos em aberto. Acionistas fortes permitem assumir riscos maiores. Acionistas fracos pedem maior cautela e conservadorismo na análise dos indicadores.

    Tabela de Risco Financeiro de fornecedores – Após ter calculado os indicadores, podemos gerar uma nota de risco financeiro. Como padrão utilizo a tabela abaixo para calcular a Nota de Risco Financeiro de Fornecedores onde 0 (zero) é a pior nota e 10 (dez) a melhor nota.

    A ponderação acima foi criada a partir de sugestões de diferentes gerentes de finanças e diretores de compras ao longo dos últimos 5 anos. Normalmente a ponderação do órgão de proteção ao crédito (Probabilidade de inadimplência) é reduzida em 50% e o restante distribuído entre os outros indicadores quando analisamos empresas com faturamento superior a R$50 milhões de reais ou quando o total de protestos são inferiores a 1% do faturamento porém, isso fica a critérios de cada analista.

    Em resumo, o cálculo do risco financeiro dos fornecedores nos ajuda a tomar melhores decisões. Um fornecedor com risco financeiro alto pode ser contratado? Essa resposta deve ser dada pelo comprador profissional. Ele tem os demais antecedentes da homologação, proposta técnica, financeira e inclusive alternativas para troca rápida do fornecedor em caso de problemas. Para assumir riscos devemos contar com o máximo de informação possível.

    Agradeço importante contribuição para a criação deste artigo de Marisa Cristina Parise e André Passari. Ambos revisaram o artigo, adicionaram conceitos e me ajudaram a melhorar conceitos e conhecimentos.